Sunday, July 18, 2004

Subindo o Monte Moriá

 Demorou? Demorou.Vou fazer isso de novo? Não sei.
 
Dica 1: Para aqueles que acham essas letrinhas do blog meio ininteligíveis, sugiro a dobradinha "Ctrl+C / Ctrl+V" em algum editor de texto.
Dica 2: Se você quiser deixar seu comentário mas não for assinante do Blogger faça-o como "Anonymous", que eu vou apreciar do mesmo jeito. Só não esqueça assinar no final para eu saber qual dos anônimos é você.
 
Próxima atualização = (humor + oportunidade) x inspiração
 
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Moscas

Acordo mais cedo do que o habitual. Talvez devido à tensão. Meus pares dizem que é normal se sentir assim quando chega o grande dia. De fato, a percepção muda, as cores parecem ficar mais vivas, e o tempo passa de forma diferente. Mais lento, de modo que se possa saborear cada instante, cada sensação que resta antes da mudança. Em toda minha vida nunca houve um só momento em que pudesse me dar ao luxo de observar a passagem de um minuto como esse, em que uma mosca, incapaz de entender a sutileza do mundo a sua volta, choca-se esporadicamente contra o vidro da janela, a barreira invisível. Como se a natureza repentinamente se pervertesse e suas leis deixassem de ser perfeitas. Sendo a nova realidade incompreensível, o destino da mosca seria debater-se à exaustão. Não hoje. Abro a janela e a mosca, alheia ao fato de que as coisas acabam de voltar ao normal, investe mais uma vez contra a anomalia. Ela ganha as ruas, mas jamais saberá o porquê de seu sucesso.
Já sem barba, vejo no espelho um rosto que não reconheço. Talvez eu não seja realmente mais o mesmo. E por um novo minuto eu encaro o estranho no espelho e fico à espera de que ele diga alguma coisa. “Não há nada a ser dito” sou em quem fala. Não há tremor em minha voz.
O desjejum é frugal. Um colega trouxe os filhos para me conhecer. Eles me rodeiam, me tocam, dizem que sou um herói. Eu digo que eles o são, mas eles são novos demais para entender o real significado da frase.
Sou chamado para o ritual de preparação. Membros de nossa organização que nunca vi antes encontram-se presentes. Olham-me com respeito. Alguns, especialmente entre os jovens, ensaiam elogios mais exaltados. Sou abraçado, beijado. Suor e afeto se misturam à atmosfera tensa que paira desde minha nomeação. A euforia me entorpece e uma letargia se apossa de meu corpo e espírito. As vozes soam desconexas, guturais. Ecos em uma mente anestesiada. Perturbado, procuro um cômodo onde sozinho eu possa respirar o silêncio. Um dos mais velhos vem até mim. Sua fala cadenciada e melódica se traduz em paz de espírito. Sou senhor de mim novamente. Estou pronto.
São dois ajudando-me com as vestes. O peso é insignificante comparado à liberdade de um povo oprimido. Sinto-me leve.
Ponho-me a caminho do meu objetivo. Faz calor, e durante um bom trecho do trajeto um misto inexplicável de excitação e apatia tortura minha alma e confunde meu raciocínio. Minhas pernas ameaçam falhar. Procuro me lembrar das palavras reconfortantes do velho. Ele falava sobre anos de opressão, mas isso não era importante. Ele falava sobre a janela que se abriria após minha jornada. Janela. Seríamos todos moscas investindo contra janelas fechadas? Uma brisa suave alisa meu rosto, resgatando-me de meus devaneios. Há um pequeno grupo de pessoas aguardando o mesmo transporte. Lembro-me de quando era criança e meu pai me repreendia por eu ter feito algo de errado. Eu evitava encará-lo como evito encarar as pessoas ao meu redor. Estranho, pois hoje estou prestes a fazer a coisa certa. No entanto, é melhor assim. O ônibus chega. No seu interior, pessoas vindas de diversos países a visitar um país que não é; mais um paradoxo. Esse sim, a razão de tudo isso. A razão pela qual temos nos entregado de corpo e alma em nossa missão. A razão pela qual procuro permanecer incógnito. Fixo meu olhar num ponto vazio e ando até os bancos localizados no fim do corredor. Um ruído chama minha atenção. Apenas um garoto, não mais que onze, brincando com uma máquina fotográfica. Ele se volta pra mim. Não há traços de sofrimento, dor ou perda em sua expressão como nos semblantes de nossas crianças. Os rostos aflitos dos filhos de meu colega flutuam em meu pensamento. De repente a expressão do garoto muda. Ele não está mais me encarando. Quando percebo o novo alvo de seu interesse é tarde demais. Apesar de tenra idade, ele entende o que vê. Ele chama pela mãe e ela também vê. Sou traído pelos fios que pendem de minha jaqueta. Meu estômago se contorce. O olhar da mulher revela um misto de pavor e ódio. Antes mesmo que seu grito ressoe, posso sentir os olhos dos outros passageiros se virando assustados em minha direção.
Lamento não ter chegado até o centro da cidade. Todas sensações abandonam minha alma. A cacofonia de gritos de homens, mulheres e crianças ecoa distante, imcompreensível, como o zumbido das moscas. Eles, as moscas.
Sou filho de Abraão e meu pai me oferece em sacrifício.
Alá está comigo!

Wednesday, June 09, 2004

O problema acabou...O gaticida chegou!

Nas últimas semanas, Dragon, o pacífico rotweiller que adora caviar, viveu momentos difícies nas mãos (ou melhor, garras) da Máfia Felina. Para não ser brutalmente assassinado pelos agentes nada secretos do país vizinho, teve que erguer muralhas quase chinesas pra se defender. Aparentemente a paz voltou a Dracolândia; felizmente, sem a intervenção norte-americana.
"O gaticida" é uma ode a Dragon.

PS: vou continuar postando as dicas por um tempo...

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Próxima atualização: 17/06 (possivelmente...)

O gaticida

Dona Teresa, ou simplesmente “a velha”, nunca foi conhecida por sua simpatia. Minha turma, por sua vez, nunca foi conhecida pelos bons modos. Se fôssemos definir a coisa em termos bélicos, poderíamos dizer que a velha era o Iraque e nós éramos os impiedosos invasores americanos. Sem coração, sem respeito e sem motivo (Bidê, nosso Rumsfeld, alegava que tínhamos um motivo, embora dificilmente conseguisse traduzi-lo em argumentos convincentes). O alvo primário era o jardim iraquiano e seus anões terroristas. Nosso índice de sucesso nas missões beirava a casa dos cem percentuais, e isso pode ser excelente para os padrões militares, mas um bando de moleques mal-intencionados se entedia rapidamente com ações que exigem pouca ou nenhuma audácia.
Numa reunião no campinho perto de casa, debatemos horas a fio a necessidade de incursões mais arrojadas em território inimigo. Quanto maior o grau de dificuldade, maior a glória. Bidê tinha quebrado o braço jogando bola, Toninho tinha levado um ultimato do pai pra não se meter em confusão, Raul passava mal só de pensar em subir uma escada e Fraldinha o nome já dizia, café-com-leite. “Sobrou pra você, Dudu.” “Eu vou, bando de maricas.” Apesar dos protestos contra meu desabafo, foi só eu virar as costas que escutei suspiros de alívio, mas eu sabia de um que não tinha suspirado. Bidê era uma espécie de líder, cujo carisma provinha principalmente de sua marra e sua trajetória insólita no bairro. Quem invadira o terreno da Sabesp pra mijar na caixa d’água? Bidê. Quem tinha roubado as bonecas das meninas pra depois pedir resgate sem nunca ter sido descoberto? Bidê. Quem teve o braço quebrado por um lojista furioso depois de fazer tiro ao alvo com a bola?
No fim de tarde, como de costume, nos encontramos na garagem da casa do Raul. Pra falar a verdade, o único motivo pelo qual o Raul fazia parte da turma era porque, além de ceder a garagem pra ser nosso quartel-general, a irmã dele era a garota mais gostosa da rua. Melissa tinha dezesseis, mas todo mundo achava que tinha dezoito. Seios empinados, uma cinturinha maravilhosa e pernas longilíneas e bem torneadas. Tudo isso num corpo bronzeado, coroado com longas madeixas morenas. Melícia era mesmo uma delissa.
Raul pedira a mãe que fizesse sanduíches pra gente. Uma espécie de banquete pré-batalha. A última refeição dos soldados antes do combate. A ironia estava no fato de que toda a tropa iria ficar na retaguarda. Somente o escolhido iria cruzar as linhas inimigas. A boca seca não me deixou comer o sanduíche inteiro. E olha que eu adorava pasta de atum. Fiquei tão puto com o Raul fazendo de tudo pra agradar que não me contive “Quer mesmo ser legal? Então convence sua irmã a dar pra mim!” Ninguém riu. E por mais que o Raul detestasse o fato de alguém mexer com a irmã dele, ainda assim não quis se indispor comigo. Antes que alguém falasse alguma coisa eu joguei panos quentes “Zoeira, seus manés!” Todos riram. Raul riu meio nervoso. No fundo ele sabia que o sonho de qualquer homem num raio de cinco quarteirões era comer a irmã dele. Meu sonho não era diferente.
Marcamos o horário da ação para as vinte e duas horas. “Depois da novela a velha capota”. Seguimos em silêncio até o front. A casa era de esquina, sendo que a frente da casa dava para uma rua plana e a lateral para uma ladeira. Geralmente mantínhamos nosso campo de ação da grade frontal até a mureta da varanda. Anões-de-jardim patrulhavam o território inimigo nesse trecho. Tantas foram nossas missões anteriores que alguns deles se encontravam descascados, mutilados ou sutilmente tatuados. Uma vez Bidê usou um canivete pra desenhar um pinto na barriga de um dos anões. Moleque daquela idade tinha fascinação por pinto. O problema era que Bidê sabia mesmo era jogar bola, e o pinto ficou parecendo uma flor.
Sob a proteção de uma árvore, perscrutamos a redondeza em busca de testemunhas em potencial. Tivemos que adiar nosso plano em quase uma hora e meia porque um casal de namorados havia escolhido o outro lado da rua pra se esfregar em cima de uma moto. Fora isso, estávamos com sorte. Eu estava com sorte. O combinado era uma ação mais ousada, a começar pelo método de invasão. Na ladeira, Toninho e Raul fizeram pezinho e me impulsionaram paredão acima. As pedras dispostas aleatoriamente e as inúmeras reentrâncias facilitavam a escalada, e rapidamente eu cheguei ao alto do muro. Senti-me o próprio Neil Armstrong. Olhei para baixo. Recebi olhares e gestos encorajadores de Houston. Saltei rumo ao desconhecido.
Objetivo: exploração minuciosa do território inimigo, de preferência com a execução de atos de vandalismo. Senti o suor em minhas mãos enquanto brincava com a caixa de fósforos. Comecei a circundar o forte inimigo em busca de um alvo para minha malícia. A casa da velha devia ser tão antiga quanto ela, pois a lavanderia ficava num puxado nos fundos da casa. Imaginei as chamas consumindo sutiãs e fraldas geriátricas. Ultimamente a velha mal saía de casa, o que para nossa turma era um alívio. Na época em que ela ainda circulava pelo bairro, costumava furar nossas bolas, chamava todas as meninas de putinhas e vez ou outra distribuía puxões de orelha. Imaginei a velha queimando ao invés das roupas. Imaginei a velha sendo expelida feito uma nuvem piroclástica pelo telhado da casa em chamas. Enquanto minha imaginação trabalhava, fui à caça de algo inflamável. Abri a porta e adentrei a lavanderia pé ante pé. Resolvi não acender a luz pra não chamar a atenção e saí tateando com as mãos pra não derrubar nada. Enfiei meu pé numa bacia, e fui obrigado a arriscar o mínimo de luz. Risquei um fósforo. Um cortador de gramas velho encostado na parede divida espaço com utensílios de jardinagem e mangueiras furadas e desbotadas. As prateleiras de madeira certamente tinham a mesma idade da velha, e abrigavam desde revistas e jornais empoeirados até dezenas de caixas de sabão em pó vazias. Imaginei a velha recortando as caixas e mandando cartas para concorrer a uma viagem ao Vesúvio. Com sorte a mocréia tropeçaria pra dentro do vulcão. Querosene... e um miado. Quase morri de susto “Gato filho da puta”. Encarei o gato. Minha imaginação tomou conta. A teia alimentar, o mais forte come o mais fraco. As teias de aranha na lavanderia. Botei fogo numa só pra ver a aranha esturricar, com as patinhas se dobrando no sentido do ventre. Lembrava um feto. Eu prestes a cortar a teia da vida do gato. “Esse gato vai pagar o pato”. Dizem que criança dessa idade adora uma crueldade. Freud disse isso faz tempo. Um certo Felthous disse isso recentemente. Mas na época eu não precisava de dessas desculpas. A idéia me excitou. Não deixei por menos. Engraçado. Enquanto eu despejava o querosene sobre o gato eu só pensava na Melissa. Imaginei o fogo que devia haver entre as pernas dela. Ignição. O gato atravessou o quintal feito um foguete, pulou no muro e num rompante suicida se atirou no vazio. A bola de fogo felina atravessou o vão da rua feito um meteoro e foi se estatelar no capô de um carro. Missão cumprida.
Raul e Toninho, grandes amigos, saíram correndo ao ver o bichano flamejante. Sei que no fundo Bidê queria estar lá dentro comigo. Com certeza ficou com uma ponta de inveja, mas uma inveja saudável, pois permaneceu junto ao Fraldinha pra me ajudar a descer, mesmo com o braço quebrado. Corremos como nunca, cada um pra sua casa.
Naquela noite não consegui dormir direito. Tomei quase um litro de água, mas a boca permanecia seca. Só conseguia pensar no gato miando e na voz de veludo da Melissa, no gato disparando pelo quintal e nas pernas da Melissa, no vôo do gato e nos cabelos esvoaçantes da Melissa.
Duas semanas após o ocorrido me vinguei do Raul comendo a irmã dele.
Depois disso não parei de matar gatos.

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Thursday, June 03, 2004

Maldição Geométrica

Resolvi atualizar o blog antes do fim de semana porque fiquei com o saco cheio de olhar pra ele com um post só.
O texto abaixo é um conto sobre Ernesto, um homem vitimado por uma maldição geométrica. Agradecimentos especiais a Tatá pelo elogio quadrilátero que acabou virando conto.

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Próxima atualização: 10/06 (eu acho...)

O Homem do sorriso quadrado

Às vezes, ao olhar de soslaio para um espelho, Ernesto tinha a ligeira sensação de que sua face não carregava mais o problema que tanto o afligia. O problema que o perseguia desde que se dava por gente; o fato inegável de que seu sorriso, apesar de todos os seus esforços, era de uma geometria cruel. “Uma piada de mau gosto de Deus” diziam alguns. “É coisa do Tinhoso” acusava Benedita, a secular empregada da vó Lidinha, fazendo o sinal da cruz. Fosse a obra divina ou diabólica, o que realmente importava para Ernesto era solucionar tal anátema geométrico.
Desde pequeno a única tarefa que Ernesto considerava realmente prazerosa ao longo do dia era o ato de escovar os dentes. A justeza simétrica de seu sorriso proporcionava uma operação rente e sem falhas. Nunca a alvura de seus dentes fora maculada por cáries, tártaros e afins. Bom para Ernesto, ruim para os dentistas, que temiam que o sorriso quadrilátero virasse moda. E era levando longos períodos na escovação que Ernesto compensava todo o desgosto gerado pela sua deformidade. Uma pessoa normal gasta entre um e três minutos para completar essa corriqueira operação. O recorde de Ernesto era de quarenta e sete minutos, ou uma edição completa do Jornal Nacional, como ele mesmo se gabava.
A despeito da satisfação gerada por esses raros momentos, a maldição geométrica de Ernesto deixou sua marca em inúmeros momentos de sua vida. O primeiro beijo, que só aconteceu porque a menina usava óculos mas oportunamente se encontrava sem os mesmos, teve que ser ensaiado com peças de um jogo de encaixar. No teatrinho da escola, Ernesto não era o Seu Jumento, tampouco Dom Ratão. “Quem quer casar com a Dona Baratinha, que tem fita no cabelo e dinheiro na caixinha?” E lá se punha Ernesto a sorrir com os dentes pintados de dourado.
Ernesto fora encorajado pelos amigos a se consultar com um especialista.
— Um amigo meu me disse que o cunhado da prima dele fez uma operação pra corrigir um defeito parecido e ficou quase perfeito.
— Quase?!
— É...tipo...ficou coisa mínima...nem se repara.
— Sei...
— Há de se dar um jeito nisso, rapaz. Tenha fé!
Fé era uma coisa que Ernesto já decidira há muito tempo que não tinha. Se Deus realmente existia, tinha um senso de humor doentio.
Quanto aos médicos, como de hábito, o pânico assumia o controle. E se uma cirurgia deixasse a coisa pior do que estava? Sentia náuseas só de pensar nas piadas que se fariam de alguém com um sorriso circular. E se o médico olhasse bem na cara dele e dissesse que ele precisava era de um geômetra? Centros cirúrgicos onde bisturis, gaivas e costótomos davam lugar a esquadros, transferidores e compassos eram uma constante nos pesadelos de Ernesto nas salas de espera. Geralmente fugia antes mesmo de seu nome ser anunciado. Ironicamente, foi justamente numa dessas ocasiões que sua vida deu uma reviravolta.
Cedendo às pressões dos amigos, Ernesto decidiu juntar coragem para se consultar com um cirurgião. Enquanto aguardava o atendimento, reparou que a recepcionista da clínica o observava. Acanhado, tentou conter-se a todo custo, mas o teimoso sorriso quadrado escapara. Suou frio, antevendo a expressão de espanto e repulsa que sem dúvida se instalaria na face da moça. Curiosamente, não foi isso o que aconteceu. Ela sorriu de volta, e por alguns instantes Ernesto ficou tentando assimilar aquela situação, totalmente nova e por demais embaraçosa. Movido pela curiosidade e se valendo de uma audácia que não lhe era comum, Ernesto iniciou um diálogo com a moça, que de recepcionista foi logo promovida a Taiz. Esquecendo completamente o motivo que o levara até ali, e para sua própria surpresa, Ernesto se viu convidando Taiz para um café.
Da consulta para o café, do café para o jantar, do jantar pra cama e da cama pro altar. Em menos de um mês trocaram votos na Igreja da Cruz Torta — exigência de Ernesto, numa afronta à simetria que lhe fora imposta pelo destino. Mas foi apenas com o assanhamento que acompanha a intimidade que Ernesto descobriu que entre quatro paredes o sorriso quadrado tinha seu valor.
A maldição virou benção e gradualmente Ernesto deixou de ser tão diligente na escovação; certamente, para dedicar seu tempo livre a assuntos de maior importância. Eventualmente, a primeira cárie encontrou seu caminho para o até então imaculado sorriso. Temendo que patologias mais desagradáveis acometessem seu agora precioso paralelogramo bucal, Ernesto decidiu que era hora de proteger o patrimônio. E quem poderia adivinhar, sendo a mão do destino tão imprevisível, que ao coloca-lo diante de seu salvador, o mesmo diria:
— Muito prazer... Dr. Euclides.

Sunday, May 30, 2004

First things first...

Cada post trará uma crônica, conto ou noveleta, de minha autoria ou de outrém.
A idéia é atualizar o bendito semanalmente, mas por motivos humanos (leia-se falta de inspiração) isso pode não acontecer.

Divirtam-se!

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Crônica da semana...

Relato de um encontro que não foi

Sexta-Feira, R. Teodoro Sampaio, 763.

19h14 - Humbas sai de casa munido de um guarda-chuva e coragem
19h15 - Ensopado, Humbas repara que se uma armadura medieval não o protegeria da fúria dos céus, o que dizer de um brinde petrolífero com cabo de plástico;

Percurso (1/3 bípede, 2/3 quadrimotor pilotado por um quadrúpede)

19h21 - Após múltiplos esforços para cruzar corredeiras capazes de arrastar paquidermes adormecidos, Humbas curva-se diante dos céus. O taxista percebe o gesto.
19h25 - Humbas e seu motorista temporário têm um breve desentendimento sobre as capacidades anfíbias do veículo que co-habitam.
19h27 - Triunfante, Humbas consegue sair do carro da anta sem ajuda de aparatos flutuantes.

Sacolão da Vila Madalena

19h28 (aquecimento) - Ao chegar, Humbas se convence que a chuva torrencial vomitada sobre as pobres almas da paulicéia desvairada afugentaria os nobres membros da lista de ex-colegas classe de uma eventual (porém importante) reunião.
Um pato molhado, Humbas decide que uma apetitosa esfiha de carne com gotas de limão, um tantinho de pimenta árabe e uma Bohemia gelada são o "combo" ideal para aquecer o corpo e refrescar o espírito.
Humbas engata uma conversa animada com Wal, ilustre proprietária do estabelecimento.
Uma senhora de proporções avantajadas e apetite similar interrompe o diálogo. Temporariamente privado de sua interlocutora, Humbas acompanha de soslaio a interação comercial que se desenrola. Coalhadas, queijinhos, esfihas e macarrãozinho na quentinha. Um quarto de hora depois, entediado, Humbas vasculha a vizinhança em busca de rostos conhecidos. Sem sucesso.
A cliente, que agregara mais volume ao seu próprio, se retira. A chuva passara e talvez a essa hora fosse seguro retornar para o aconchego de seu lar.
Com a atenção de volta ao que realmente interessava, duas esfihas estranhamente achatadas chamam a atenção de Humbas, que indaga a proprietária o motivo da estranha apresentação do produto. Ignorante, Humbas prova a iguaria, acelgas deslizam pelo tubo digestivo. Humbas cede à nobreza do salgado, e era uma vez duas esfihas estranhas.
A conversa com Wal evolui para o nível comercial. Wal quer expandir. Humbas quer se livrar de geladeira. Wal precisa de geladeira com porta de vidro. Geladeira de Humbas preenche requisitos. Oferta e Procura. Wal pergunta marca da geladeira. Humbas espirra, mata pernilongo com peteleco e comenta “ta abafado, né?” Humbas propõe negócio. Wal pergunta marca da geladeira. Humbas diz que já respondeu. Wal percebe que Humbas não havia espirrado. Wal pergunta quanto Humbas quer na geladeira. Humbas se lembra de música de Björk. Humbas fica de pensar no preço enquanto degusta um prato de quibe cru. Humbas encontra livro de conjugação de verbos em italiano. Humbas se inspira em Brando e Pacino para pronunciar suas primeiras frases em italiano. “É chiaro che se vuoi, io, che sono il tuo fratello del cuore, posso darti qualche lezione.”
Duas jovens clientes se aproximam do balcão. “Frango com amêndoas” parece ser o pedido ideal. Humbas devora o quibe cru com lascívia. Com igual sensação, Humbas alimenta os olhos com as pernas da morena. Saciado, frugal e visualmente, Humbas volta ao livro, e tenta decifrar seu misterioso índice remissivo. Humbas lê “giocare, pg. 7”. Humbas não encontra giocare na pág. 7. Prestes a perdoar o deslize dos editores, Humbas esbarra em outros 214 erros similares. Humbas força sua capacidade cognitiva, já influenciada pelo álcool. Sem efeito. Livro deixa de ser interessante quando italiano vira grego.
Humbas olha no relógio. Humbas se espanta ao ver que são mais 21h15. Um petiz paga a conta com o dinheiro do pai, mesmo tendo carteira à mão. Humbas propõe troca de carteiras. Petiz fica desconfiado. Humbas propõe troca de nota de 50 por nota de 20. Petiz recusa. Humbas profetiza um futuro financeiro desastroso para o infante caso o mesmo continue a desperdiçar chances de quase triplicar seu capital.
21h20 – Novas clientes chegam. Clientes misturam sushi com charutinhos de folha de uva. Em respeito à amizade de anos, Humbas pede preço camarada por geladeira. Wal encara Humbas com “penetrante-olhar-árabe -carregado-de-perguntas-cujas-respostas-erradas- podem-significar-a-morte” . Suando frio e numa tentativa desesperada de mudar o assunto, Humbas desvia o olhar.
São 21h32, e Maria, prima de Humbas e namorada de Primo, cruza olhares com o mesmo. Aos 44 do segundo tempo, faz-se a luz no fim do túnel. Explicações climáticas justificam a ausência de outros possíveis participantes. Maria conta a Humbas que adquiriu um automóvel. Primo chega e Maria o apresenta ao primo. Jogos com palavras são divertidos. Maria e Humbas tomam missô. O trio decide mudar de ares. “Graminha”, vizinho da locação A, torna-se a locação B.
Primo e prima pedem pizza métrica, primo revela estar satisfeito. Humbas não resiste ao jogo de palavras. Humbas vibra com o giz de cera que lhe é servido. A arte flui nas mesas dos restaurantes da Vila. Maria pede caricatura a Humbas. Longe da CNTP, Humbas tenta se adaptar aos rudimentares rabiscadores e à superfície rústica que tem como base. O resultado final não agrada ao autor, mas parece ser elusivo o suficiente para agradar à retratada.
Elogios são feitos ao bairro Sumaré (morada de Primo e ex-diversas-vezes-morada de Humbas), exceção anotada às suas monstruosas ladeiras. Primo, Maria e Humbas pedem a conta. A demora da mesma rende algumas lições de desenho. “Desenho é observação”. Maria tem talento mas não sabe. Primo tem talento mas é muito modesto.
Primo e Maria convidam Humbas para balada. Humbas recusa, pensando no compromisso bovino do dia seguinte. Maria conduz Humbas para casa em sua brasília amarela. Humbas adora primas que o levam em casa. Humbas se despede do casal. Humbas liga o micro e escuta música de Björk. “Hyperballad”.
O relógio tenta lhe dizer que não são 26h78, e ligeiramente bêbado, Humbas capota.

PS: Nenhum ser vivo, com exceção do pernilongo, se feriu no desenrolar dos eventos acima.