Wednesday, June 09, 2004

O problema acabou...O gaticida chegou!

Nas últimas semanas, Dragon, o pacífico rotweiller que adora caviar, viveu momentos difícies nas mãos (ou melhor, garras) da Máfia Felina. Para não ser brutalmente assassinado pelos agentes nada secretos do país vizinho, teve que erguer muralhas quase chinesas pra se defender. Aparentemente a paz voltou a Dracolândia; felizmente, sem a intervenção norte-americana.
"O gaticida" é uma ode a Dragon.

PS: vou continuar postando as dicas por um tempo...

Dica 1: Para aqueles que acham essas letrinhas do blog meio ininteligíveis, sugiro a dobradinha "Ctrl+C / Ctrl+V" em algum editor de texto.
Dica 2: Se você quiser deixar seu comentário mas não for assinante do Blogger faça-o como "Anonymous", que eu vou apreciar do mesmo jeito. Só não esqueça assinar no final para eu saber qual dos anônimos é você.

Próxima atualização: 17/06 (possivelmente...)

O gaticida

Dona Teresa, ou simplesmente “a velha”, nunca foi conhecida por sua simpatia. Minha turma, por sua vez, nunca foi conhecida pelos bons modos. Se fôssemos definir a coisa em termos bélicos, poderíamos dizer que a velha era o Iraque e nós éramos os impiedosos invasores americanos. Sem coração, sem respeito e sem motivo (Bidê, nosso Rumsfeld, alegava que tínhamos um motivo, embora dificilmente conseguisse traduzi-lo em argumentos convincentes). O alvo primário era o jardim iraquiano e seus anões terroristas. Nosso índice de sucesso nas missões beirava a casa dos cem percentuais, e isso pode ser excelente para os padrões militares, mas um bando de moleques mal-intencionados se entedia rapidamente com ações que exigem pouca ou nenhuma audácia.
Numa reunião no campinho perto de casa, debatemos horas a fio a necessidade de incursões mais arrojadas em território inimigo. Quanto maior o grau de dificuldade, maior a glória. Bidê tinha quebrado o braço jogando bola, Toninho tinha levado um ultimato do pai pra não se meter em confusão, Raul passava mal só de pensar em subir uma escada e Fraldinha o nome já dizia, café-com-leite. “Sobrou pra você, Dudu.” “Eu vou, bando de maricas.” Apesar dos protestos contra meu desabafo, foi só eu virar as costas que escutei suspiros de alívio, mas eu sabia de um que não tinha suspirado. Bidê era uma espécie de líder, cujo carisma provinha principalmente de sua marra e sua trajetória insólita no bairro. Quem invadira o terreno da Sabesp pra mijar na caixa d’água? Bidê. Quem tinha roubado as bonecas das meninas pra depois pedir resgate sem nunca ter sido descoberto? Bidê. Quem teve o braço quebrado por um lojista furioso depois de fazer tiro ao alvo com a bola?
No fim de tarde, como de costume, nos encontramos na garagem da casa do Raul. Pra falar a verdade, o único motivo pelo qual o Raul fazia parte da turma era porque, além de ceder a garagem pra ser nosso quartel-general, a irmã dele era a garota mais gostosa da rua. Melissa tinha dezesseis, mas todo mundo achava que tinha dezoito. Seios empinados, uma cinturinha maravilhosa e pernas longilíneas e bem torneadas. Tudo isso num corpo bronzeado, coroado com longas madeixas morenas. Melícia era mesmo uma delissa.
Raul pedira a mãe que fizesse sanduíches pra gente. Uma espécie de banquete pré-batalha. A última refeição dos soldados antes do combate. A ironia estava no fato de que toda a tropa iria ficar na retaguarda. Somente o escolhido iria cruzar as linhas inimigas. A boca seca não me deixou comer o sanduíche inteiro. E olha que eu adorava pasta de atum. Fiquei tão puto com o Raul fazendo de tudo pra agradar que não me contive “Quer mesmo ser legal? Então convence sua irmã a dar pra mim!” Ninguém riu. E por mais que o Raul detestasse o fato de alguém mexer com a irmã dele, ainda assim não quis se indispor comigo. Antes que alguém falasse alguma coisa eu joguei panos quentes “Zoeira, seus manés!” Todos riram. Raul riu meio nervoso. No fundo ele sabia que o sonho de qualquer homem num raio de cinco quarteirões era comer a irmã dele. Meu sonho não era diferente.
Marcamos o horário da ação para as vinte e duas horas. “Depois da novela a velha capota”. Seguimos em silêncio até o front. A casa era de esquina, sendo que a frente da casa dava para uma rua plana e a lateral para uma ladeira. Geralmente mantínhamos nosso campo de ação da grade frontal até a mureta da varanda. Anões-de-jardim patrulhavam o território inimigo nesse trecho. Tantas foram nossas missões anteriores que alguns deles se encontravam descascados, mutilados ou sutilmente tatuados. Uma vez Bidê usou um canivete pra desenhar um pinto na barriga de um dos anões. Moleque daquela idade tinha fascinação por pinto. O problema era que Bidê sabia mesmo era jogar bola, e o pinto ficou parecendo uma flor.
Sob a proteção de uma árvore, perscrutamos a redondeza em busca de testemunhas em potencial. Tivemos que adiar nosso plano em quase uma hora e meia porque um casal de namorados havia escolhido o outro lado da rua pra se esfregar em cima de uma moto. Fora isso, estávamos com sorte. Eu estava com sorte. O combinado era uma ação mais ousada, a começar pelo método de invasão. Na ladeira, Toninho e Raul fizeram pezinho e me impulsionaram paredão acima. As pedras dispostas aleatoriamente e as inúmeras reentrâncias facilitavam a escalada, e rapidamente eu cheguei ao alto do muro. Senti-me o próprio Neil Armstrong. Olhei para baixo. Recebi olhares e gestos encorajadores de Houston. Saltei rumo ao desconhecido.
Objetivo: exploração minuciosa do território inimigo, de preferência com a execução de atos de vandalismo. Senti o suor em minhas mãos enquanto brincava com a caixa de fósforos. Comecei a circundar o forte inimigo em busca de um alvo para minha malícia. A casa da velha devia ser tão antiga quanto ela, pois a lavanderia ficava num puxado nos fundos da casa. Imaginei as chamas consumindo sutiãs e fraldas geriátricas. Ultimamente a velha mal saía de casa, o que para nossa turma era um alívio. Na época em que ela ainda circulava pelo bairro, costumava furar nossas bolas, chamava todas as meninas de putinhas e vez ou outra distribuía puxões de orelha. Imaginei a velha queimando ao invés das roupas. Imaginei a velha sendo expelida feito uma nuvem piroclástica pelo telhado da casa em chamas. Enquanto minha imaginação trabalhava, fui à caça de algo inflamável. Abri a porta e adentrei a lavanderia pé ante pé. Resolvi não acender a luz pra não chamar a atenção e saí tateando com as mãos pra não derrubar nada. Enfiei meu pé numa bacia, e fui obrigado a arriscar o mínimo de luz. Risquei um fósforo. Um cortador de gramas velho encostado na parede divida espaço com utensílios de jardinagem e mangueiras furadas e desbotadas. As prateleiras de madeira certamente tinham a mesma idade da velha, e abrigavam desde revistas e jornais empoeirados até dezenas de caixas de sabão em pó vazias. Imaginei a velha recortando as caixas e mandando cartas para concorrer a uma viagem ao Vesúvio. Com sorte a mocréia tropeçaria pra dentro do vulcão. Querosene... e um miado. Quase morri de susto “Gato filho da puta”. Encarei o gato. Minha imaginação tomou conta. A teia alimentar, o mais forte come o mais fraco. As teias de aranha na lavanderia. Botei fogo numa só pra ver a aranha esturricar, com as patinhas se dobrando no sentido do ventre. Lembrava um feto. Eu prestes a cortar a teia da vida do gato. “Esse gato vai pagar o pato”. Dizem que criança dessa idade adora uma crueldade. Freud disse isso faz tempo. Um certo Felthous disse isso recentemente. Mas na época eu não precisava de dessas desculpas. A idéia me excitou. Não deixei por menos. Engraçado. Enquanto eu despejava o querosene sobre o gato eu só pensava na Melissa. Imaginei o fogo que devia haver entre as pernas dela. Ignição. O gato atravessou o quintal feito um foguete, pulou no muro e num rompante suicida se atirou no vazio. A bola de fogo felina atravessou o vão da rua feito um meteoro e foi se estatelar no capô de um carro. Missão cumprida.
Raul e Toninho, grandes amigos, saíram correndo ao ver o bichano flamejante. Sei que no fundo Bidê queria estar lá dentro comigo. Com certeza ficou com uma ponta de inveja, mas uma inveja saudável, pois permaneceu junto ao Fraldinha pra me ajudar a descer, mesmo com o braço quebrado. Corremos como nunca, cada um pra sua casa.
Naquela noite não consegui dormir direito. Tomei quase um litro de água, mas a boca permanecia seca. Só conseguia pensar no gato miando e na voz de veludo da Melissa, no gato disparando pelo quintal e nas pernas da Melissa, no vôo do gato e nos cabelos esvoaçantes da Melissa.
Duas semanas após o ocorrido me vinguei do Raul comendo a irmã dele.
Depois disso não parei de matar gatos.

***

Thursday, June 03, 2004

Maldição Geométrica

Resolvi atualizar o blog antes do fim de semana porque fiquei com o saco cheio de olhar pra ele com um post só.
O texto abaixo é um conto sobre Ernesto, um homem vitimado por uma maldição geométrica. Agradecimentos especiais a Tatá pelo elogio quadrilátero que acabou virando conto.

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Próxima atualização: 10/06 (eu acho...)

O Homem do sorriso quadrado

Às vezes, ao olhar de soslaio para um espelho, Ernesto tinha a ligeira sensação de que sua face não carregava mais o problema que tanto o afligia. O problema que o perseguia desde que se dava por gente; o fato inegável de que seu sorriso, apesar de todos os seus esforços, era de uma geometria cruel. “Uma piada de mau gosto de Deus” diziam alguns. “É coisa do Tinhoso” acusava Benedita, a secular empregada da vó Lidinha, fazendo o sinal da cruz. Fosse a obra divina ou diabólica, o que realmente importava para Ernesto era solucionar tal anátema geométrico.
Desde pequeno a única tarefa que Ernesto considerava realmente prazerosa ao longo do dia era o ato de escovar os dentes. A justeza simétrica de seu sorriso proporcionava uma operação rente e sem falhas. Nunca a alvura de seus dentes fora maculada por cáries, tártaros e afins. Bom para Ernesto, ruim para os dentistas, que temiam que o sorriso quadrilátero virasse moda. E era levando longos períodos na escovação que Ernesto compensava todo o desgosto gerado pela sua deformidade. Uma pessoa normal gasta entre um e três minutos para completar essa corriqueira operação. O recorde de Ernesto era de quarenta e sete minutos, ou uma edição completa do Jornal Nacional, como ele mesmo se gabava.
A despeito da satisfação gerada por esses raros momentos, a maldição geométrica de Ernesto deixou sua marca em inúmeros momentos de sua vida. O primeiro beijo, que só aconteceu porque a menina usava óculos mas oportunamente se encontrava sem os mesmos, teve que ser ensaiado com peças de um jogo de encaixar. No teatrinho da escola, Ernesto não era o Seu Jumento, tampouco Dom Ratão. “Quem quer casar com a Dona Baratinha, que tem fita no cabelo e dinheiro na caixinha?” E lá se punha Ernesto a sorrir com os dentes pintados de dourado.
Ernesto fora encorajado pelos amigos a se consultar com um especialista.
— Um amigo meu me disse que o cunhado da prima dele fez uma operação pra corrigir um defeito parecido e ficou quase perfeito.
— Quase?!
— É...tipo...ficou coisa mínima...nem se repara.
— Sei...
— Há de se dar um jeito nisso, rapaz. Tenha fé!
Fé era uma coisa que Ernesto já decidira há muito tempo que não tinha. Se Deus realmente existia, tinha um senso de humor doentio.
Quanto aos médicos, como de hábito, o pânico assumia o controle. E se uma cirurgia deixasse a coisa pior do que estava? Sentia náuseas só de pensar nas piadas que se fariam de alguém com um sorriso circular. E se o médico olhasse bem na cara dele e dissesse que ele precisava era de um geômetra? Centros cirúrgicos onde bisturis, gaivas e costótomos davam lugar a esquadros, transferidores e compassos eram uma constante nos pesadelos de Ernesto nas salas de espera. Geralmente fugia antes mesmo de seu nome ser anunciado. Ironicamente, foi justamente numa dessas ocasiões que sua vida deu uma reviravolta.
Cedendo às pressões dos amigos, Ernesto decidiu juntar coragem para se consultar com um cirurgião. Enquanto aguardava o atendimento, reparou que a recepcionista da clínica o observava. Acanhado, tentou conter-se a todo custo, mas o teimoso sorriso quadrado escapara. Suou frio, antevendo a expressão de espanto e repulsa que sem dúvida se instalaria na face da moça. Curiosamente, não foi isso o que aconteceu. Ela sorriu de volta, e por alguns instantes Ernesto ficou tentando assimilar aquela situação, totalmente nova e por demais embaraçosa. Movido pela curiosidade e se valendo de uma audácia que não lhe era comum, Ernesto iniciou um diálogo com a moça, que de recepcionista foi logo promovida a Taiz. Esquecendo completamente o motivo que o levara até ali, e para sua própria surpresa, Ernesto se viu convidando Taiz para um café.
Da consulta para o café, do café para o jantar, do jantar pra cama e da cama pro altar. Em menos de um mês trocaram votos na Igreja da Cruz Torta — exigência de Ernesto, numa afronta à simetria que lhe fora imposta pelo destino. Mas foi apenas com o assanhamento que acompanha a intimidade que Ernesto descobriu que entre quatro paredes o sorriso quadrado tinha seu valor.
A maldição virou benção e gradualmente Ernesto deixou de ser tão diligente na escovação; certamente, para dedicar seu tempo livre a assuntos de maior importância. Eventualmente, a primeira cárie encontrou seu caminho para o até então imaculado sorriso. Temendo que patologias mais desagradáveis acometessem seu agora precioso paralelogramo bucal, Ernesto decidiu que era hora de proteger o patrimônio. E quem poderia adivinhar, sendo a mão do destino tão imprevisível, que ao coloca-lo diante de seu salvador, o mesmo diria:
— Muito prazer... Dr. Euclides.