A idéia é atualizar o bendito semanalmente, mas por motivos humanos (leia-se falta de inspiração) isso pode não acontecer.
Divirtam-se!
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Crônica da semana...
Relato de um encontro que não foi
Sexta-Feira, R. Teodoro Sampaio, 763.
19h14 - Humbas sai de casa munido de um guarda-chuva e coragem
19h15 - Ensopado, Humbas repara que se uma armadura medieval não o protegeria da fúria dos céus, o que dizer de um brinde petrolífero com cabo de plástico;
Percurso (1/3 bípede, 2/3 quadrimotor pilotado por um quadrúpede)
19h21 - Após múltiplos esforços para cruzar corredeiras capazes de arrastar paquidermes adormecidos, Humbas curva-se diante dos céus. O taxista percebe o gesto.
19h25 - Humbas e seu motorista temporário têm um breve desentendimento sobre as capacidades anfíbias do veículo que co-habitam.
19h27 - Triunfante, Humbas consegue sair do carro da anta sem ajuda de aparatos flutuantes.
Sacolão da Vila Madalena
19h28 (aquecimento) - Ao chegar, Humbas se convence que a chuva torrencial vomitada sobre as pobres almas da paulicéia desvairada afugentaria os nobres membros da lista de ex-colegas classe de uma eventual (porém importante) reunião.
Um pato molhado, Humbas decide que uma apetitosa esfiha de carne com gotas de limão, um tantinho de pimenta árabe e uma Bohemia gelada são o "combo" ideal para aquecer o corpo e refrescar o espírito.
Humbas engata uma conversa animada com Wal, ilustre proprietária do estabelecimento.
Uma senhora de proporções avantajadas e apetite similar interrompe o diálogo. Temporariamente privado de sua interlocutora, Humbas acompanha de soslaio a interação comercial que se desenrola. Coalhadas, queijinhos, esfihas e macarrãozinho na quentinha. Um quarto de hora depois, entediado, Humbas vasculha a vizinhança em busca de rostos conhecidos. Sem sucesso.
A cliente, que agregara mais volume ao seu próprio, se retira. A chuva passara e talvez a essa hora fosse seguro retornar para o aconchego de seu lar.
Com a atenção de volta ao que realmente interessava, duas esfihas estranhamente achatadas chamam a atenção de Humbas, que indaga a proprietária o motivo da estranha apresentação do produto. Ignorante, Humbas prova a iguaria, acelgas deslizam pelo tubo digestivo. Humbas cede à nobreza do salgado, e era uma vez duas esfihas estranhas.
A conversa com Wal evolui para o nível comercial. Wal quer expandir. Humbas quer se livrar de geladeira. Wal precisa de geladeira com porta de vidro. Geladeira de Humbas preenche requisitos. Oferta e Procura. Wal pergunta marca da geladeira. Humbas espirra, mata pernilongo com peteleco e comenta “ta abafado, né?” Humbas propõe negócio. Wal pergunta marca da geladeira. Humbas diz que já respondeu. Wal percebe que Humbas não havia espirrado. Wal pergunta quanto Humbas quer na geladeira. Humbas se lembra de música de Björk. Humbas fica de pensar no preço enquanto degusta um prato de quibe cru. Humbas encontra livro de conjugação de verbos em italiano. Humbas se inspira em Brando e Pacino para pronunciar suas primeiras frases em italiano. “É chiaro che se vuoi, io, che sono il tuo fratello del cuore, posso darti qualche lezione.”
Duas jovens clientes se aproximam do balcão. “Frango com amêndoas” parece ser o pedido ideal. Humbas devora o quibe cru com lascívia. Com igual sensação, Humbas alimenta os olhos com as pernas da morena. Saciado, frugal e visualmente, Humbas volta ao livro, e tenta decifrar seu misterioso índice remissivo. Humbas lê “giocare, pg. 7”. Humbas não encontra giocare na pág. 7. Prestes a perdoar o deslize dos editores, Humbas esbarra em outros 214 erros similares. Humbas força sua capacidade cognitiva, já influenciada pelo álcool. Sem efeito. Livro deixa de ser interessante quando italiano vira grego.
Humbas olha no relógio. Humbas se espanta ao ver que são mais 21h15. Um petiz paga a conta com o dinheiro do pai, mesmo tendo carteira à mão. Humbas propõe troca de carteiras. Petiz fica desconfiado. Humbas propõe troca de nota de 50 por nota de 20. Petiz recusa. Humbas profetiza um futuro financeiro desastroso para o infante caso o mesmo continue a desperdiçar chances de quase triplicar seu capital.
21h20 – Novas clientes chegam. Clientes misturam sushi com charutinhos de folha de uva. Em respeito à amizade de anos, Humbas pede preço camarada por geladeira. Wal encara Humbas com “penetrante-olhar-árabe -carregado-de-perguntas-cujas-respostas-erradas- podem-significar-a-morte” . Suando frio e numa tentativa desesperada de mudar o assunto, Humbas desvia o olhar.
São 21h32, e Maria, prima de Humbas e namorada de Primo, cruza olhares com o mesmo. Aos 44 do segundo tempo, faz-se a luz no fim do túnel. Explicações climáticas justificam a ausência de outros possíveis participantes. Maria conta a Humbas que adquiriu um automóvel. Primo chega e Maria o apresenta ao primo. Jogos com palavras são divertidos. Maria e Humbas tomam missô. O trio decide mudar de ares. “Graminha”, vizinho da locação A, torna-se a locação B.
Primo e prima pedem pizza métrica, primo revela estar satisfeito. Humbas não resiste ao jogo de palavras. Humbas vibra com o giz de cera que lhe é servido. A arte flui nas mesas dos restaurantes da Vila. Maria pede caricatura a Humbas. Longe da CNTP, Humbas tenta se adaptar aos rudimentares rabiscadores e à superfície rústica que tem como base. O resultado final não agrada ao autor, mas parece ser elusivo o suficiente para agradar à retratada.
Elogios são feitos ao bairro Sumaré (morada de Primo e ex-diversas-vezes-morada de Humbas), exceção anotada às suas monstruosas ladeiras. Primo, Maria e Humbas pedem a conta. A demora da mesma rende algumas lições de desenho. “Desenho é observação”. Maria tem talento mas não sabe. Primo tem talento mas é muito modesto.
Primo e Maria convidam Humbas para balada. Humbas recusa, pensando no compromisso bovino do dia seguinte. Maria conduz Humbas para casa em sua brasília amarela. Humbas adora primas que o levam em casa. Humbas se despede do casal. Humbas liga o micro e escuta música de Björk. “Hyperballad”.
O relógio tenta lhe dizer que não são 26h78, e ligeiramente bêbado, Humbas capota.
PS: Nenhum ser vivo, com exceção do pernilongo, se feriu no desenrolar dos eventos acima.
