Thursday, June 03, 2004

Maldição Geométrica

Resolvi atualizar o blog antes do fim de semana porque fiquei com o saco cheio de olhar pra ele com um post só.
O texto abaixo é um conto sobre Ernesto, um homem vitimado por uma maldição geométrica. Agradecimentos especiais a Tatá pelo elogio quadrilátero que acabou virando conto.

Dica 1: Para aqueles que acham essas letrinhas do blog meio ininteligíveis, sugiro a dobradinha "Ctrl+C / Ctrl+V" em algum editor de texto.
Dica 2: Se você quiser deixar seu comentário mas não for assinante do Blogger faça-o como "Anonymous", que eu vou apreciar do mesmo jeito. Só não esqueça assinar no final para eu saber qual dos anônimos você é.

Próxima atualização: 10/06 (eu acho...)

O Homem do sorriso quadrado

Às vezes, ao olhar de soslaio para um espelho, Ernesto tinha a ligeira sensação de que sua face não carregava mais o problema que tanto o afligia. O problema que o perseguia desde que se dava por gente; o fato inegável de que seu sorriso, apesar de todos os seus esforços, era de uma geometria cruel. “Uma piada de mau gosto de Deus” diziam alguns. “É coisa do Tinhoso” acusava Benedita, a secular empregada da vó Lidinha, fazendo o sinal da cruz. Fosse a obra divina ou diabólica, o que realmente importava para Ernesto era solucionar tal anátema geométrico.
Desde pequeno a única tarefa que Ernesto considerava realmente prazerosa ao longo do dia era o ato de escovar os dentes. A justeza simétrica de seu sorriso proporcionava uma operação rente e sem falhas. Nunca a alvura de seus dentes fora maculada por cáries, tártaros e afins. Bom para Ernesto, ruim para os dentistas, que temiam que o sorriso quadrilátero virasse moda. E era levando longos períodos na escovação que Ernesto compensava todo o desgosto gerado pela sua deformidade. Uma pessoa normal gasta entre um e três minutos para completar essa corriqueira operação. O recorde de Ernesto era de quarenta e sete minutos, ou uma edição completa do Jornal Nacional, como ele mesmo se gabava.
A despeito da satisfação gerada por esses raros momentos, a maldição geométrica de Ernesto deixou sua marca em inúmeros momentos de sua vida. O primeiro beijo, que só aconteceu porque a menina usava óculos mas oportunamente se encontrava sem os mesmos, teve que ser ensaiado com peças de um jogo de encaixar. No teatrinho da escola, Ernesto não era o Seu Jumento, tampouco Dom Ratão. “Quem quer casar com a Dona Baratinha, que tem fita no cabelo e dinheiro na caixinha?” E lá se punha Ernesto a sorrir com os dentes pintados de dourado.
Ernesto fora encorajado pelos amigos a se consultar com um especialista.
— Um amigo meu me disse que o cunhado da prima dele fez uma operação pra corrigir um defeito parecido e ficou quase perfeito.
— Quase?!
— É...tipo...ficou coisa mínima...nem se repara.
— Sei...
— Há de se dar um jeito nisso, rapaz. Tenha fé!
Fé era uma coisa que Ernesto já decidira há muito tempo que não tinha. Se Deus realmente existia, tinha um senso de humor doentio.
Quanto aos médicos, como de hábito, o pânico assumia o controle. E se uma cirurgia deixasse a coisa pior do que estava? Sentia náuseas só de pensar nas piadas que se fariam de alguém com um sorriso circular. E se o médico olhasse bem na cara dele e dissesse que ele precisava era de um geômetra? Centros cirúrgicos onde bisturis, gaivas e costótomos davam lugar a esquadros, transferidores e compassos eram uma constante nos pesadelos de Ernesto nas salas de espera. Geralmente fugia antes mesmo de seu nome ser anunciado. Ironicamente, foi justamente numa dessas ocasiões que sua vida deu uma reviravolta.
Cedendo às pressões dos amigos, Ernesto decidiu juntar coragem para se consultar com um cirurgião. Enquanto aguardava o atendimento, reparou que a recepcionista da clínica o observava. Acanhado, tentou conter-se a todo custo, mas o teimoso sorriso quadrado escapara. Suou frio, antevendo a expressão de espanto e repulsa que sem dúvida se instalaria na face da moça. Curiosamente, não foi isso o que aconteceu. Ela sorriu de volta, e por alguns instantes Ernesto ficou tentando assimilar aquela situação, totalmente nova e por demais embaraçosa. Movido pela curiosidade e se valendo de uma audácia que não lhe era comum, Ernesto iniciou um diálogo com a moça, que de recepcionista foi logo promovida a Taiz. Esquecendo completamente o motivo que o levara até ali, e para sua própria surpresa, Ernesto se viu convidando Taiz para um café.
Da consulta para o café, do café para o jantar, do jantar pra cama e da cama pro altar. Em menos de um mês trocaram votos na Igreja da Cruz Torta — exigência de Ernesto, numa afronta à simetria que lhe fora imposta pelo destino. Mas foi apenas com o assanhamento que acompanha a intimidade que Ernesto descobriu que entre quatro paredes o sorriso quadrado tinha seu valor.
A maldição virou benção e gradualmente Ernesto deixou de ser tão diligente na escovação; certamente, para dedicar seu tempo livre a assuntos de maior importância. Eventualmente, a primeira cárie encontrou seu caminho para o até então imaculado sorriso. Temendo que patologias mais desagradáveis acometessem seu agora precioso paralelogramo bucal, Ernesto decidiu que era hora de proteger o patrimônio. E quem poderia adivinhar, sendo a mão do destino tão imprevisível, que ao coloca-lo diante de seu salvador, o mesmo diria:
— Muito prazer... Dr. Euclides.

4 comments:

Anonymous said...

Nanda [www.lafloratta.fotolog.fot.br]
Olá! Eu sou a menina do Kill Bill/vinho na Lagoa, lembra? Não a que descobriu uma planta, a menos importante! hehehe
Pow, essa idéia de "a página errada" tá me confundindo até agora! Tenho anseios terríveis de apertar "Atualizar" constantemente! Parabéns!
E posso dar um conselho? Põe um aviso que os não-assinantes do Blogger que querem comentar, que façam como Anonymous, se não cê perde público!
Beijão! Teh qualquer fim-de-semana por ai!
Nanda.

Anonymous said...

Nanda, Manoel, Cuducos
Oi Humbas!
ahhaah ótimo essa idéia de "anonymous" porque dá pra eu falar em nome de um montão de gente que nem tá aqui! Tô reunindo um povo pra ver O Dia Depois de Amanhã amanhã. Vamos??? Convida mais quem você quiser e bora pro cineminhaaaaa... tava pensando mais de noitinha, porque tenho aula até as 6h! =P
Beijo, Nanda.

Anonymous said...

Este saiu "igualinho" ao enviado anteriormente. Doravante espero encontrar aqui os novíssimos. Seus (bons) leitores surgirão com o tempo. Há muita gente interessada no assunto. Joselito

erotic adult non-concensual sex short stories said...
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