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Próxima atualização = (humor + oportunidade) x inspiração
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Moscas
Acordo mais cedo do que o habitual. Talvez devido à tensão. Meus pares dizem que é normal se sentir assim quando chega o grande dia. De fato, a percepção muda, as cores parecem ficar mais vivas, e o tempo passa de forma diferente. Mais lento, de modo que se possa saborear cada instante, cada sensação que resta antes da mudança. Em toda minha vida nunca houve um só momento em que pudesse me dar ao luxo de observar a passagem de um minuto como esse, em que uma mosca, incapaz de entender a sutileza do mundo a sua volta, choca-se esporadicamente contra o vidro da janela, a barreira invisível. Como se a natureza repentinamente se pervertesse e suas leis deixassem de ser perfeitas. Sendo a nova realidade incompreensível, o destino da mosca seria debater-se à exaustão. Não hoje. Abro a janela e a mosca, alheia ao fato de que as coisas acabam de voltar ao normal, investe mais uma vez contra a anomalia. Ela ganha as ruas, mas jamais saberá o porquê de seu sucesso.
Já sem barba, vejo no espelho um rosto que não reconheço. Talvez eu não seja realmente mais o mesmo. E por um novo minuto eu encaro o estranho no espelho e fico à espera de que ele diga alguma coisa. “Não há nada a ser dito” sou em quem fala. Não há tremor em minha voz.
O desjejum é frugal. Um colega trouxe os filhos para me conhecer. Eles me rodeiam, me tocam, dizem que sou um herói. Eu digo que eles o são, mas eles são novos demais para entender o real significado da frase.
Sou chamado para o ritual de preparação. Membros de nossa organização que nunca vi antes encontram-se presentes. Olham-me com respeito. Alguns, especialmente entre os jovens, ensaiam elogios mais exaltados. Sou abraçado, beijado. Suor e afeto se misturam à atmosfera tensa que paira desde minha nomeação. A euforia me entorpece e uma letargia se apossa de meu corpo e espírito. As vozes soam desconexas, guturais. Ecos em uma mente anestesiada. Perturbado, procuro um cômodo onde sozinho eu possa respirar o silêncio. Um dos mais velhos vem até mim. Sua fala cadenciada e melódica se traduz em paz de espírito. Sou senhor de mim novamente. Estou pronto.
São dois ajudando-me com as vestes. O peso é insignificante comparado à liberdade de um povo oprimido. Sinto-me leve.
Ponho-me a caminho do meu objetivo. Faz calor, e durante um bom trecho do trajeto um misto inexplicável de excitação e apatia tortura minha alma e confunde meu raciocínio. Minhas pernas ameaçam falhar. Procuro me lembrar das palavras reconfortantes do velho. Ele falava sobre anos de opressão, mas isso não era importante. Ele falava sobre a janela que se abriria após minha jornada. Janela. Seríamos todos moscas investindo contra janelas fechadas? Uma brisa suave alisa meu rosto, resgatando-me de meus devaneios. Há um pequeno grupo de pessoas aguardando o mesmo transporte. Lembro-me de quando era criança e meu pai me repreendia por eu ter feito algo de errado. Eu evitava encará-lo como evito encarar as pessoas ao meu redor. Estranho, pois hoje estou prestes a fazer a coisa certa. No entanto, é melhor assim. O ônibus chega. No seu interior, pessoas vindas de diversos países a visitar um país que não é; mais um paradoxo. Esse sim, a razão de tudo isso. A razão pela qual temos nos entregado de corpo e alma em nossa missão. A razão pela qual procuro permanecer incógnito. Fixo meu olhar num ponto vazio e ando até os bancos localizados no fim do corredor. Um ruído chama minha atenção. Apenas um garoto, não mais que onze, brincando com uma máquina fotográfica. Ele se volta pra mim. Não há traços de sofrimento, dor ou perda em sua expressão como nos semblantes de nossas crianças. Os rostos aflitos dos filhos de meu colega flutuam em meu pensamento. De repente a expressão do garoto muda. Ele não está mais me encarando. Quando percebo o novo alvo de seu interesse é tarde demais. Apesar de tenra idade, ele entende o que vê. Ele chama pela mãe e ela também vê. Sou traído pelos fios que pendem de minha jaqueta. Meu estômago se contorce. O olhar da mulher revela um misto de pavor e ódio. Antes mesmo que seu grito ressoe, posso sentir os olhos dos outros passageiros se virando assustados em minha direção.
Lamento não ter chegado até o centro da cidade. Todas sensações abandonam minha alma. A cacofonia de gritos de homens, mulheres e crianças ecoa distante, imcompreensível, como o zumbido das moscas. Eles, as moscas.
Sou filho de Abraão e meu pai me oferece em sacrifício.
São dois ajudando-me com as vestes. O peso é insignificante comparado à liberdade de um povo oprimido. Sinto-me leve.
Ponho-me a caminho do meu objetivo. Faz calor, e durante um bom trecho do trajeto um misto inexplicável de excitação e apatia tortura minha alma e confunde meu raciocínio. Minhas pernas ameaçam falhar. Procuro me lembrar das palavras reconfortantes do velho. Ele falava sobre anos de opressão, mas isso não era importante. Ele falava sobre a janela que se abriria após minha jornada. Janela. Seríamos todos moscas investindo contra janelas fechadas? Uma brisa suave alisa meu rosto, resgatando-me de meus devaneios. Há um pequeno grupo de pessoas aguardando o mesmo transporte. Lembro-me de quando era criança e meu pai me repreendia por eu ter feito algo de errado. Eu evitava encará-lo como evito encarar as pessoas ao meu redor. Estranho, pois hoje estou prestes a fazer a coisa certa. No entanto, é melhor assim. O ônibus chega. No seu interior, pessoas vindas de diversos países a visitar um país que não é; mais um paradoxo. Esse sim, a razão de tudo isso. A razão pela qual temos nos entregado de corpo e alma em nossa missão. A razão pela qual procuro permanecer incógnito. Fixo meu olhar num ponto vazio e ando até os bancos localizados no fim do corredor. Um ruído chama minha atenção. Apenas um garoto, não mais que onze, brincando com uma máquina fotográfica. Ele se volta pra mim. Não há traços de sofrimento, dor ou perda em sua expressão como nos semblantes de nossas crianças. Os rostos aflitos dos filhos de meu colega flutuam em meu pensamento. De repente a expressão do garoto muda. Ele não está mais me encarando. Quando percebo o novo alvo de seu interesse é tarde demais. Apesar de tenra idade, ele entende o que vê. Ele chama pela mãe e ela também vê. Sou traído pelos fios que pendem de minha jaqueta. Meu estômago se contorce. O olhar da mulher revela um misto de pavor e ódio. Antes mesmo que seu grito ressoe, posso sentir os olhos dos outros passageiros se virando assustados em minha direção.
Lamento não ter chegado até o centro da cidade. Todas sensações abandonam minha alma. A cacofonia de gritos de homens, mulheres e crianças ecoa distante, imcompreensível, como o zumbido das moscas. Eles, as moscas.
Sou filho de Abraão e meu pai me oferece em sacrifício.
Alá está comigo!

10 comments:
Ahaaa!! Já sabe minha opinião! :) Bjs
Profundo demais....
Texto claro, sem rodeios... Simples, puro e profundo...
Final chocante.
Adorei! Estou muito orgulhosa do meu amigo! Parabéns!!!
Beijos,
Flay
No critério de avaliação zezoniano este texto vale 02 chopps. Tal qual um nariz a idéia é aquilina, já a forma, um tanto batatuda, revela o caminho a percorrer-se, e isso é que é o bom !!
Meu caríssimo Paul fiquei satisfeito. O caminho segue...
Quanto aquele tema policial ???
abs e suor.
QUE TAL REATIVAR ESTE PARANGOLÉ ??? DEMOROU !!!!
ASS: z SANCIOUS
Po, deixou o blog às traças.
vou encaminhá-lo ao clube anti-pragas domésticas.
hohohoho
te amo!
kisses*
Ha! Muito BOOOOOOMMMMMMM!!! hehehe
é isso ai Paul, espero-te no fds
abrassss!
Fê
Sou a mais suspeita já que sou sua maior fã, "tanto no pessoal quanto no profissional" rsrsrsrs....
Orgulho bombando!!!!!!!!
Parabééééééénsssssss, te amo!
Perdi as contas de quando tempo faz que estou esperando a próxima história! Faça o favor!!!!
Bj
Dani (Ah! Saldanha, viu?!)
desculpe a demora da resposta humberto. percebi q não estou sendo avisado qdo deixam recado.
então, acabei de ver, o link do musikantiga vol.02, ta normal. É do mediafare.
e aí humberto
o blog q peguei o musikantiga é esse: http://criaturadesebo.blogspot.com/search/label/Musikantiga
porra,o volume 02 é muito bom.
lá tem cantigas portuguesas do josé afonso, acho q vai gostar tb.
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